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artigos

Bullying: quem sofre?

Nestes dias tenho me visto bastante diante do assunto de bullying, e resolvi compartilhar algumas reflexões.

Este assunto tem recebido uma atenção de certa forma inédita, tanto entre o público geral quanto na mídia. Escolas oferecem palestras para esclarecer o conceito de bullying e o que pode ser feito a respeito; famílias se assustam com histórias que ocorrem entre crianças, nas escolas, nos clubes, nos grupos, e temem pela segurança dos seus filhos, torcendo para que eles não virem as próximas “vítimas” deste fenômeno; e crianças e adolescentes ficaram mais atentos e alertas, muitos temendo que ocorra algo parecido com eles, outros reconhecendo para si mesmos que talvez isto já tenha ou esteja acontecendo com eles também…

Algumas pessoas declaram: “é a nova moda”. Outros ponderam: “isto sempre aconteceu, mas não se falava disso”. Alguns preferem diminuir a importância: “aconteceu com muitos de nós, mas e daí, sobrevivemos, não?!”.
O que podemos pensar a partir deste inédito interesse no assunto? Será que sabemos dizer e reconhecer o que é o tal fenômeno de bullying? O que muda em nossa vida? O que tiramos disto?

Primeiro de tudo é importante diferenciar o fenômeno de bullying de outros comportamentos infantis e infanto-juvenis, que apesar de ser desagradáveis ou até agressivos, não necessariamente se qualificam como bullying.

Bullying tem sido definido como padrões de comportamento agressivo e repetitivo com o objetivo de prejudicar alguém. Inicialmente definido em relação a crianças e adolescentes, tem sido também inclusivo a adultos, em ambientes de trabalho, em família (entre irmãos ou entre familiares), entre professores e alunos, ou até entre vizinhos ou membros de comunidades.

É importante notar que esta nova leitura, compreensão e nomeação de um fenômeno que de fato sempre ocorreu na história da humanidade, tem permitido um reconhecimento das consequências e do sofrimento das vítimas de bullying, consequências que vão de aspectos emocionais – baixa auto-estima, insegurança, pensamentos persecutórios, ansiedade, medo de lugares e pessoas novas, depressão, até ideias suicidas – a sintomas físicos, como dores de cabeça e estômago, perda de apetite, sudorese, batimentos cardíacos acelerados, dores generalizadas, mal-estar, ataques de angústia, insônia, e assim por diante.

Mas também tem sido mais e mais reconhecido que não sofrem apenas as vítimas diretas do bullying! São necessariamente três grupos de pessoas que participam deste fenômeno, a saber: os agressores, as vítimas, e as testemunhas, ou platéias.

As vítimas, como descrito acima, sofrem pelas agressões, pela impotência, pela auto-segurança… Mas as testemunhas também sofrem ao se ver diante da própria impotência – seja de se defender (qualquer um pode ser a próxima vítima) ou de defender o próximo. Alguns tentam defender colegas, amigos, familiares – às vezes com sucesso, pois os agressores, quando sentem-se em desvantagem, muitas vezes ficam acuados e desistem da agressão. Outros se defendem posicionando-se de forma neutra ou até participativa às agressões, na tentativa de não virar a próxima vítima.

Finalmente, é importante notar também que os agressores muitas vezes agridem, provocam, são violentos, porque de alguma forma estão sofrendo, e o fazem como forma de “descontar” seu sofrimento; ou de “esconder”, mascarar, para si e/ou para os outros o que lhe incomoda, e que algo que faz sofrer. O fato é que esse comportamento pode e deve ser entendido como um sinal de que algo não está bem, e precisa ser resolvido, encarado.
Com isso não quero dizer que temos que aceitar o comportamento de bullying, ou simplesmente desculpar os agressores. Mas precisamos entender que TODOS SOFREM com esta situação! E não basta separar os agressores, se distanciar, taxá-los de maus ou rejeitá-los.

De fato, muitas vezes as pessoas acabam assumindo diferentes destas posições – de agressor, vítima, testemunha – em diferentes situações. Quantos de nós já não participamos, consciente ou incidentalmente, de rechaçamentos grupais, seja de indivíduos ou de grupos? Um chefe que não era tolerado… Um membro da família “pego para santo”, por suas atitudes irritantes, tidas como diferentes ou contra a “cultura” do grupo… Uma criança difícil… Um adolescente difícil…

Portanto, é importante compreender o fenômeno de forma dinâmica – quem se posiciona de que forma nesta situação? Por que? O que sinaliza? E mais importante: Como podemos acolher o sofrimento de cada um envolvido nestas situações, e como ajudá-los a mudar de comportamento e diminuir o sofrimento?
Uma mensagem há de ser clara: a agressão, a provocação, a discriminação deve ser INTOLERÁVEL, INACEITÁVEL!

Não podemos “acolher” o comportamento discriminatório!
Mas acolhemos as pessoas envolvidas, acolhemos o sujeito por trás do comportamento inaceitável.
Voltamos ao conceito de AMOR COM FIRMEZA – amar não é aceitar tudo.
Amar dá trabalho! Mas o resultado vale a pena!

Grande abraço a tod@s,
Sheila Skitnevsky Finger
Instituto do Amor

Será que cabe mais amor na nossa vida?

Momentos de transição por aqui. Fora a vida super cheia que já tenho, estou começando um novo emprego e vou comprar um cachorro para meu filho e para eu cuidar e amar, é claro.  Demorei muito para tomar essa decisão. Todo mundo que tem filho pequeno já sentiu essa pressãozinha… Mãeee, eu quero um cachorrinho. Compra, vai…  E o coração de mãe fica bem dividido. Cachorro? Tem que educar, levar para passear, comprar ração, levar para tomar vacina. Isso se tudo correr bem, fora quando o cachorro fica doente e tem que tomar antibiótico, se machuca. Já tive cachorro e já tive gato e sei muito bem o tamanho da encrenca. Não posso culpar ninguém por essa escolha puramente emocional. Meu filho é filho único, irmãozinho não vai rolar mesmo nessa altura do campeonato. Ele fez 7 anos esse ano, saindo oficialmente da primeira infância. Na Antroposofia,  a cada sete anos entramos em um novo ciclo de vida. Coincidência ou não, eu também estou entrando em um novo setênio. Os dois prontos para novas aventuras.

O cachorro já nasceu. Vai chegar com 40 dias na semana do Pessach , no sábado de Aleluia.  Pessach é uma festa da passagem – da escravidão para liberdade do povo judeu. Cheia de lembranças tristes, mas também cheia de esperança.  A Páscoa também marca a passagem de Cristo, da morte para a vida eterna. Enfim, meu cãozinho chega na semana certa. Vem para marcar muitas mudanças: o fim da primeira infância do meu filho, a passagem para uma vida mais madura, de responsabilidade e aprendizagem. Eu também inicio um novo um ciclo, o sétimo setênio  é a fase da crise biológica, nova adolescência. Nesse momento, o ser humano desenvolve a coragem para atuar, aumenta-se a capacidade de altruísmo (fazer o bem) e de correr riscos. Tudo indica que estamos prontos para esse novo ser que entra na nossa vida para nos trazer tudo que uma nova relação pode significar.  Não tenho ilusões que vai ser tudo florido. Mas tenho a esperança que vamos saber lidar com os desafios com amor, humor e sabedoria. Talvez seja essa a grande lição.

Tania Novinsky

* Publicado no Instituto do Amor

Desafios de Ter Filhos na Pós-Modernidade

Desafios da Pós-Modernidade

O ato de se tornar mãe revoluciona não apenas a vida da mulher que optou por dar à luz, mas todo o esquema familiar e profissional a que ela pertence. Principalmente neste momento histórico em que as mulheres se capacitam para ter um papel no mundo social, desenvolvem competências profissionais e adquirem independência econômica antes do casamento, a maternidade rompe com a construção da identidade profissional e social.

Nestes novos tempos é possível escolher quê estilo de vida queremos ter, os papéis que queremos exercer, e que atividades queremos desenvolver. Todavia, a possibilidade de tantas escolhas e opções não necessariamente torna a nossa vida mais fácil… Mulheres podem trabalhar fora, podem construir uma carreira, podem obter satisfação na vida profissional; mas como combinar casa e trabalho? Como combinar satisfação profissional com satisfação familiar e pessoal? Onde está o equilíbrio? Quais as novas possibilidades, e quais os limites para a mulher de hoje?

No desafio da vida moderna, esta mulher precisa conciliar as suas aspirações maternais a toda uma gama de obrigações pessoais e profissionais. Sem uma administração eficiente, esta situação múltipla acaba por gerar conflito, desgaste e estresse.

Em resumo, a era pós-moderna é uma época de liberdade e responsabilidade, de novas possibilidades e novos desafios. E para mães e pais, é tempo de se reinventar – pois somos nós, pais e mães de hoje, que estamos galgando os caminhos pelos quais passarão nossos filhos e netos; cabe a nós contribuir para um futuro de possibilidades mais amplas porém possíveis. Portanto, a pós-modernidade é marcada pela confluência entre tudo o que se tornou possível, e a falta de definições claras. Ou, dito de outra forma, tudo hoje é uma questão de escolhas; esse é o desafio, mas também a maravilha para os pais de hoje!

Família Pós-Moderna:

A familia pós-moderna não nasceu assim; há um contexto, uma história. É importante entender como chegamos até aqui, para visualizar para onde queremos e podemos ir.
Antigamente ser mãe era “natural”, ou seja, a maternidade era vista como a principal função e identidade a ser almejada pelas mulheres. Porém, em nossa era pós-feminista, ter uma carreira ou atividade passou a ser esperado das mulheres e pelas mulheres. Enquanto as expectativas da sociedade em relação às mulheres mudaram, o suporte que a mulher recebe – seja do marido ou da família, e de modo geral da sociedade – seguramente não acompanhou esta evolução das expectativas do papel da mulher.

A modernidade já se vai no tempo, época em que as mulheres descobriram a possibilidade de se igualar ao homem, de buscar realizações para além das atividades domésticas e familiares. O movimento feminista possibilitou muitas aberturas para as mulheres, e até hoje ainda estamos reinventado a educação dos filhos. Muitas são as equações que integram o cotidiano dos pais de hoje – múltiplas funções, imposição social quanto a carreira ou atividade profissional, conhecimento sobre teorias e técnicas de educação, e assim por diante.

Hoje espera-se da mulher que se realize dentro e fora de casa, que seja uma mãe presente, competente, educadora e eficaz, mas que também se preocupe com sua identidade pessoal, que se cuide, que esteja bem resolvida, que ganhe dinheiro e contribua com as finanças de casa, etc. Nossa geração foi educada para pensar e almejar uma carreira profissional ou uma atividade gratificante. E para a maior parte das mulheres, ser mãe e formar uma família segue sendo uma prioridade. Para o pai de hoje também houveram mudanças em relação à possibilidade de participar presente e ativamente na educação dos filhos e na vida familiar.

Concluimos portanto que a mulher saiu de casa e multiplicou seus papéis, enquanto o homem se interessou mais pela educação dos filhos; mais ainda, através da pediatria, psicologia, psicanálise e teorias do desenvolvimento, as crianças também passaram a ter uma nova importância familiar e social, e passaram a receber um olhar mais cuidadoso. Portanto enquanto os papéis dos pais se multiplicaram dentro e fora de casa, criou-se uma nova e maior demanda para se olhar, entender, educar e se relacionar com os filhos. A questão é que enquanto existem agora mais opções e mais informações em como se educar e criar os filhos, dadas as demandas mais exigentes, existem poucos modelos prontos. Hoje, os filhos vem se transformando no maior projeto de vida dos pais e de quem os rodeia, e aí mora o perigo do “filhocentrismo”.

Por outro lado, com a diminuição da influência da comunidade para com cada família, aumentou a importância dos pais e educadores diretos enquanto modelos – de estar no mundo, de se relacionar com outras pessoas e com o ambiente, de se relacionar com a busca de conhecimento e de informações, com a aprendizagem e o processo civilizatório. São os pais de hoje (e/ou aqueles que exercem as funções maternas e paternas para as crianças) os principais modelos de pessoa para os filhos; é quem os ensina como ser e buscar o que almejam, a desenvolver os próprios talentos e aspirações, e a encarar seus desafios e obstáculos.

O desenvolvimento e a manutenção da dimensão pessoal de cada mãe e pai é fundamental tanto para a própria saúde mental e integridade emocional, quanto enquanto modelo de pessoa para os próprios filhos. Ensiná-los por modelo como ser e buscar o que almejarem, desenvolvendo seus próprios talentos e aspirações, encarando seus desafios sem se deixar abater, todos esses são ensinamentos que influenciam na formação dos filhos. Estar presente e disponível é fundamental. Mas ter momentos de ausências para se buscar realizar os próprios projetos pessoais e/ou profissionais – dadas as condições apropriadas para que as crianças estejam sendo bem cuidadas e assessoradas – é também fundamental.

Como Lidar com essa nova realidade

Propomos a seguir algumas estratégias possíveis para auxiliar os pais neste processo de educar, que requer estar ativamente envolvido, sem perder de vista a preocupação consigo próprio, enquanto pessoa, e enquanto MODELO de pessoa para os filhos:

1) Olhar Bi-Focal – presente versus futuro: manter um olhar, uma perspectiva bi-focal, onde ora privilegia-se o presente, o aqui-e-agora, ora privilegia-se o futuro, o que virá, o que será.

2) Combinação de recursos: é preciso compreender e aceitar que para cada família haverá uma combinação possível e específica. O que é possível e desejável para alguns não o é para outros. Não existem fórmulas mágicas: para se alcançar uma combinação eficaz há que se levar em conta o contexto e os recursos de cada mãe, pai, da família, de cada sistema.

3) “Vida-bilidade”: criamos o conceito de “vida-bilidade”, ou seja, de pensar a viabilidade da vida de cada um ou grupo. Trata-se portanto de buscar maneiras de tornar a vida mais viável para si e para a família, incorporando os valores, os projetos, as aspirações, assim como a realidade e as limitações pessoais e familiares; enfim, maneiras de tornar sua vida mais viável, dentro da realidade de sua realidade. Para se criar vida-bilidade, algumas premissas se fazem necessárias, como: manter expectativas realistas; ser flexível e criativo; saber priorizar tarefas, interesses e objetivos; utilizar ajuda (delegar, sabendo identificar o quê e a quem); aprender a organizar e administrar as várias funções e os vários papéis; manter constante reavaliação do processo sobre o que está e o que não está funcionando; se divertir. Em suma, lembrar que sempre existe um leque de opções; portanto dentre este leque, tentar eleger o que poderá promover maior vida-bilidade.

Reflexões finais

Na experiência pós-maternidade, passa a ser imprescindível reorganizar o novo cotidiano, pois assim como outras experiências, a maternidade nos desorganiza e nos pressiona a rever nossos valores, princípios, e até mesmo aspectos que pensávamos “resolvidos” de nossa identidade. Todavia, faz-se importante lembrar que crise também oferece oportunidade, portanto, pode-se, deve-se tomar essa desorganização como uma grande oportunidade de melhorar. Ou seja, se é verdade que mudanças causam angústia, também trazem liberdade, e são portanto ótimas oportunidades de crescer, de se re-inventar, e de se superar!

[1] Sheila Skitnevsky-Finger, psicóloga, psicanalista, com doutorado em Psicologia pela Massachusetts School of Professional Psychology, em Boston, USA (2004). Atende em consultório particular na Vila Madalena, em São Paulo; é sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa; e é pesquisadora pelo Centro de Estudos em Psicanálise e Intolerância – Cepi/LEI da USP. Tania Novinsky Haberkorn, psicóloga, psicoterapeuta, com mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade Antioch de Los Angeles, CA, em 1996. Atende em consultório particular no Brooklin, em São Paulo; é sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa.
[2] O Instituto Mãe Pessoa oferece cursos e treinamentos cujo objetivo é possibilitar um espaço para reflexão e conhecimento em busca de novas maneiras de abordar, reinventar, e administrar criativamente, a questão da educação e da maternidade nos dias de hoje. Visando atender os vários locais onde se encontram as mães de hoje, o Instituto Mãe Pessoa oferece versões In Company, nas empresas; In House, em clínicas, clubes, condomínios, escolas e afins; e In Clinic, no consultório. Mais informações pelo site: http://www.maepessoa.com.br/ ; blog: http://maepessoa.blogspot.com/ por e-mail: contato@maepessoa.com.br ou telefone 11 – 3804 3167 begin_of_the_skype_highlighting 11 – 3804 3167 end_of_the_skype_highlighting.

* Artigo publicado na revista da Escola de Pais do Brasil, junho de 2009