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“O POSSÍVEL & O IMPOSSÍVEL PERANTE A INTOLERÂNCIA”

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Sheila Skitnevsky Finger

Texto publicado no Curso Virtual III – “Educação para a Tolerância”. Centro de Estudos em Psicanálise e Intolerância – CEPI, do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância – LEI, da Universidade de São Paulo – USP.

RESUMO: o presente texto argumenta que bases educacionais individuais e coletivas que visem a uma maior tolerância entre pessoas e entre grupos humanos necessariamente precisam partir do reconhecimento do mal-estar da cultura humana, e por extensão, do reconhecimento dos limites do que é ou não possível “sanar” em relação aos fenômenos de intolerância.

    I. Introdução

    A intolerância é um fenômeno humano e social, sintoma (no sentido de sinal, resultado) do conflito humano entre querer ser uno separado e querer pertencer, entre buscar a independência e buscar a aceitação pelos demais. A constituição do sujeito, a construção do EU, passa inegavelmente pela relação com o outro – a partir do primeiro vínculo significativo, a mãe. Ser todo e ter tudo, versus ser separado como um EU diferenciado, estas são as origens dos conflitos que nos fazem ser o que somos,
    mas também nos fazem sofrer para sempre. Preço e prêmio de nossa condição humana, vivemos no limite entre o impossível – de se libertar do outro, da dependência desta inter-relação – e o possível – todo o resto, quase uma infinidade de possibilidades.

    Impossível nos desfazer de nossa condição humana; mas possível fazer “mil e uma coisas” a partir dela. Para se pensar uma
    “Educação para a Tolerância”, uma formação cultural que privilegie a tolerância ao invés da intolerância, é necessário reconhecer os limites do possível e do impossível, e de formas de fomentar, dentro das possibilidades, a maior
    convivência – e com-vivência.

    Para traçar esse argumento, este texto aborda os seguintes temas: o que a psicanálise nos ensina sobre nós mesmos; o que a
    psicanálise nos ensina sobre a cultura humana; e o que estas contribuições psicanalíticas podem nos apontar em relação ao fenômeno da intolerância, e por extensão, às bases educacionais individuais e coletivas que visem a uma maior tolerância entre pessoas assim como entre grupos humanos.

    II. O que a Psicanálise nos ensina sobre nós mesmos:

    A psicanálise nos fez deparar com nossa divisão perene: somos seres divididos, cindidos entre o que queremos e o que buscamos; entre nobres motivações conscientes, e primitivas pulsões inconscientes e inconsequentes. Somos seres egoístas,
    individualistas e egocentrados, mas também seres sociais, gentis, e com um forte espírito de cuidado ao outro, de comunidade e de comunhão. Se desta divisão advém nossas frustrações, nosso sofrimento e nossa confusão, advém também nossa criatividade, nossa capacidade de ser e fazer apesar de nossas limitações, e de nos superar e re-inventar. Esta divisão subjetiva nos rege em todas as nossas relações, em nossas construções psíquicas, e em nossas visões de mundo e de nós mesmos.
    Além disso, somos seres sociais por excelência. Como nos fez notar Freud, somos os únicos seres vivos que após o nascimento, seguem por tanto tempo dependentes de um outro para sobreviver; não apenas nos primeiros anos de vida, mas somos
    eternamente dependentes da relação com outros, da linguagem consequente da socialização, e da cultura resultante de nosso processo de humanização. Portanto, a outra marca de nossa existência, essência de nossa natureza humana, se encontra na premissa de alteridade.

    Jacques Lacan, psicanalista francês e “re-leitor” de Freud, sempre fez questão de marcar o interesse e a consideração pelo outro,
    como nos faz notar Antonio Quinet, no texto “A Heteridade de Lacan”[1]:

    “Lacan desfaz a ilusão de completude, a pretensão de síntese e a miragem da unidade do EU, mostrando que eu é, antes de mais nada outro. E aquele que vejo na minha frente que penso ser outro é igual a mim. …Esse próximo que se me assemelha, e a quem me ensinaram dever amar, é antes um intruso.  Por ser igual é rival.  …  Esse outro é experimentado e percebido como um intruso que invade e rivaliza com o eu pelo mesmo lugar. No entanto é o eu que vem primeiramente usurpar o lugar do
    sujeito. Esse intruso, o eu, o sujeito o percebe como outro.” E ainda: “Esse outro que é meu semelhante é minha alteridade egóica, projeção narcísica de meu eu, espelho que me envia minha própria imagem a ponto de considerá-lo semelhante. Este outro se é alter, é alter-ego, nada mais do que meu ego alter-ado. Ele é o caramujo que encerra no âmago de sua carapaça imaginária o objeto que causa tanto meu ódio quanto meu maravilhamento.” (p. 1-2)

    O outro sou eu, como aponta Lacan; o outro odiado, repudiado, rejeitado, apenas representa meu mal-estar consequente da minha divisão e da marca da alteridade e da heteridade (de heteros, outro) em mim.

    A condição humana nos oferece um prêmio e um preço: o prêmio que recebemos por nossa humanidade representa todo o possível, a saber, o acesso a um amplo espectro cultural e as possibilidades de sublimação e interação que este espectro apresenta: linguagem, outras línguas, artes, conhecimento novo e acumulado, senso estético, criatividade, prazer,
    satisfação, desejo, busca por novos horizontes… Podemos pensar quem somos, onde nos encontramos; podemos ter noção do mundo em que vivemos, imaginar o que vai além do que nossos sentidos possam perceber. Temos acesso a esta ampla gama
    cultural, que alimenta nossa sede de troca e de inserção social.

    Todavia, pagamos um alto preço pela nossa humanidade: o acesso à cultura é limitado, nossa inserção é fadada a incompletude, nossa frustração e insatisfação é sempre presente: ao pensar, não conseguimos entender completamente; ao sentir, não
    conseguimos compreender nossos sentimentos; ao fazer, muitas vezes não nos reconhecemos em nossos atos, princípios ou motivações. Nos enganamos; nos confundimos; estamos sempre traindo nossos próprios princípios, sentimentos, pensamentos… Esta condição de falta, de incompletude, esta é a condição “impossível de curar” – como sabem bem os psicanalistas.

    A partir disso, e mesmo apesar do acesso a essa gama cultural que nós mesmos contribuímos para moldar e desenvolver, estamos sempre nos sentindo alheios, diferentes, aquém ou além; estrangeiros perante à cultura que nos cerca, mal-compreendidos e não inseridos. Almejamos a inserção social, mas sofremos para pertencer, e por pertencer. Nossa eterna briga com a alteridade, nosso desejo de nos fazermos donos de nós mesmos, conflitua-se com a marca deixada pelo desejo de se fazer através do desejo e do olhar do outro, em quem quisemos nos espelhar. Ficamos assim ‘neuroticamente’ intrigados pela
    dúvida: será que se eu fosse algo mais (ou menos), conseguiria ser feliz? Se eu tivesse X ou Y, alcançaria enfim algum reconhecimento? Se eu pudesse isso ou aquilo, poderia talvez desfrutar de alguma liberdade?

    Nesta resposta neurótica, nossa cisão e nosso mal-estar vão nos levando a criar fábulas, narrativas, invenções e adivinhações
    sobre como ser, como falar, como fazer, como desejar… Estas fantasias vão tentando dar conta de responder o que podemos ou não, o que devemos ou não, quais são os nossos limites, as nossas possibilidades, os nossos direitos e os nossos deveres.

    Se a neurose é o preço que pagamos pelo acesso à cultura e à linguagem, as alternativas, do ponto de vista psicanalítico, não
    são mais fáceis ou menos dolorosas. Sem entrar em mais detalhes, importante notar que Freud define como neuróticos todos aqueles que justamente têm acesso à cultura e à linguagem, e por isso sofrem um eterno mal-estar, estando sempre
    em conflito psíquico: eu versus o outro; amor versus ódio; união versus separação; alienação versus inclusão… A alternativa portanto à neurose se traduz em restrição ao que nos faz humanos, origem das várias psicopatologias do campo da psicose ou da perversão[2].

    III. O que a Psicanálise nos ensina sobre a cultura humana:

    Através da noção psicanalítica de que o ser humano é social em sua essência, e de que, todavia, um mal-estar permeia todas as
    relações sociais, a noção de cultura humana pode ser compreendida como a consequência psíquica coletiva deste dilema humano entre eu e o outro, entre o ser e o mundo que nos rodeia.

    Como nos aponta a psicanalista Betty B. Fuks (1993), “se é verdade que o principal legado de Freud foi a fundamentação de um método de cura, no qual um homem, falando para um outro, encontra alívio à dor e à angústia, também é certo que a psicanálise inovou, de forma radical e irreversível, o modo de se refletir e pensar a cultura.” (p. 7)

    Na verdade, Freud começou a repensar a cultura e o indivíduo a partir de suas desilusões com o espírito humano destrutivo e
    irracional que aflorou no coração da civilização européia, na Primeira Guerra Mundial. Como resume Fuks: “Ao se dar conta de que todos os empenhos culturais da história da humanidade foram insuficientes para drenar essa inclinação inevitável do sujeito à destruição, Freud… decidiu aprofundar suas reflexões sobre ‘a inclinação inata do ser humano ao ‘mal’, à agressão, à destruição e, com elas, também à crueldade.” E assim elaborou o conceito de pulsão de morte, cujo movimento visaria
    o retorno ao estado inanimado. A conceitualização da pulsão de morte enquanto contraponto às pulsões de vida ou sexuais substituiu a contraposição até então defendida por Freud, entre os princípios de prazer e realidade[3].

    A cultura humana passa então a ser vista na obra de Freud como consequência da constante busca de equilíbrio entre as pulsões de vida e a pulsão de morte – equilíbrio esse imprescindível ao sujeito e à civilização: “Quando [a pulsão de morte] é dirigida ao exterior do sujeito para prestar serviços à lógica do aniquilamento do outro – o que é a base de todas as guerras e do assassinato – a pulsão destrutiva dissolve e destrói tudo o que a vida e a cultura constróem” (Fuks, p. 39).

    Como também descreve o psicanalista Mauro Mendes Dias (1993): “No que concerne ao sujeito, o principal produto desse laço social instaurado pela civilização foi detectado por Freud: o mal-estar – é o que retorna ao sujeito ao ceder à exigência da renúncia pulsional imposta pela civilização”. (p. 183). Apesar do mal-estar inerente, a única solução viável para o homem sobreviver com suas pulsões, na cultura, é através do ato de sublimar[4]. A sublimação tem a qualidade de fortalecer os laços sociais entre os homens, promover mudanças e desenvolver as grandes criações culturais, como a religião, a filosofia, a ciência, a arte e os ideais.

    A cultura humana é portanto nossa forma desengonçada de domar a nossa natureza, transformando nossas pulsões destrutivas em ideias e recursos criativos, sofisticados e superiores.

    IV. O que estas contribuições psicanalíticas podem nos apontar:

    A. Posicionamento crítico: responsabilidade individual & coletiva

    Estamos acostumados a pensar a função do psicanalista dentro de sua prática clínica. Mas a psicanálise na verdade proporciona uma capacidade analítica tal que coloca o analista numa posição ética e cívica que vai além de seu consultório. Não se trata de transpor leituras clínicas individuais para o coletivo, mas sim de compreender o indivíduo contextualizado em seu meio social. O indivíduo não existe fora do meio -  ele é constituído pelas relações sociais, pela linguagem, e pela cultura que o permeia.

    A própria obra de Freud é um exemplo vivo de sua busca em considerar o referencial psicanalítico para pensar a cultura humana – de questões biológicas a espirituais, de questões sociais à religião, economia, política; e também sobre a guerra, a origem das organizações sociais, à filosofia, e assim por diante. Freud nos aponta para a coragem e a necessidade
    de um olhar ético, que desmembra e dissolve os sentidos visíveis, completos e fechados, para considerar cada sujeito e cada fenômeno humano em seu contexto histórico e social, em sua dimensão profunda e multidimensional, e em sua
    característica relacional.

    Mais ainda, em sua proposição de que o analista deve ser sempre crítico de sua cultura, Freud nos clama a que façamos resistência “a toda e qualquer visão de mundo capaz de impedir o sujeito – individual ou coletivo – de se expressar singularmente sobre o universal do amor, do ódio, da vida e da morte” (Fuks, p. 23). O movimento psicanalítico impõe assim ao
    analista o destino de tornar-se crítico da cultura que testemunha. “O analista não pode jamais ficar numa posição neutra na luta entre o obscurantismo da bárbarie e a cultura”, nos alerta Fuks (2003, p. 62). Esta é sua responsabilidade ética e cívica, que aponta para várias possibilidades de atuação, interpretação e ação no social.

    No plano coletivo e para além da clínica transferencial, é portanto dever do analista escutar e denunciar a impunidade
    requerida por quaisquer movimentos a favor da intolerância. Como nos chama a atenção Betty B. Fuks (2003), em seu livro “Freud & a Cultura”: “Freud foi categórico: o antídoto contra o traço compulsivo e indestrutível de assimilar, humilhar, destruir e infligir dores ao outro que a humanidade carrega é manter a chama do desejo de construir a vida permanente e infinitamente acesa” (p. 62)

    A psicanálise tem assim contribuído para se pensar não apenas o ser humano, mas também tudo o mais que lhe diz respeito: sua história, sua cultura, sua política e economia; suas incessantes buscas e indagações, suas frustrações, desejos e sofrimento. Não que a psicanálise, enquanto referencial teórico e filosófico, possa oferecer respostas e soluções prontas – muito pelo contrário, não se propõe e nem poderia responder, mas sim, oferecer instrumentos para questionar, analisar e formular as questões humanas mais diversas.

    Outrosim, enquanto prática de alteridade, a psicanálise aponta para a necessidade que temos de reconhecer e incluir o outro, para nos livrar de nosso destino de outra forma auto-destrutivo. Assim, pode e deve o psicanalista, sempre a partir de um
    fenômeno, buscar razões e conexões outras que a primeira vista passam desapercebidas. Partindo-se do princípio freudiano básico de que somos determinados pelo inconsciente, cuja característica é justamente estar além de nosso conhecimento e
    realização conscientes, a psicanálise busca seu objeto fora do visível, para incluí-lo, rompendo as ligações manifestas para fazer com que apareçam as conexões latentes; dissipando assim as significações articuladas e completas para que o sentido inconsciente possa emergir. Esta busca do sentido inconsciente, e das significações determinadas por causas que nos escapam e ao nosso controle, possibilita ressignifações que vão dirigindo o sujeito rumo a uma maior responsabilidade assim como maior
    liberdade sobre seu próprio destino.

    B. Psicanálise e Intolerância

    O que é possível frente à intolerância? Esta é uma pergunta que me coloco constantemente. Qual pode ser o alcance de nossa ação? Qual é o meu poder de mudança, e qual meu dever de intervenção?

    Quando me coloco a questão da intolerância, observo que algumas instâncias do intolerável me são mais difíceis de pensar, analisar, e encontrar um sentido do que outras. E isto me aponta à primeira característica fundamental do fenômeno da intolerância: que este é muito mais subjetivo do que objetivo; ou seja, que diz mais respeito acerca do sujeito que não tolera, do que do objeto que não é tolerado. Isto significa também que o que não tolero no objeto também diz mais respeito a mim do que ao objeto – geralmente porque possuo em mim tais características “intoleráveis”, e busco em objetos externos receptáculos para escoar o sentimento negativo, o ódio, que essas características, minhas, me provocam.

    Em psicanálise denonimanos de “projeção” o mecanismo de depositar fora algo que originalmente nos pertence para lidar com estes elementos como se fossem externos. Projeto para fora algo que me pertence, mas que eu preferiria que não estivesse ali. Ao colocar para fora, depositando num objeto externo, creio poder lidar com sua existência como se não me pertencesse, como
    se não me dissesse respeito.

    Do ponto de vista psicanalítico, consequentemente, o fenômeno da intolerância representa processos irracionais inconscientes e
    conscientes, que são também históricos e constituídos dentro e pela cultura. O fenômeno do preconceito não pode ser pensado como singular ou universal, mas como um fenômeno múltiplo, que aponta para vicissitudes sociais, históricas e culturais do tempo e espaço em que se manifesta. É neste sentido que a intolerância pode ser compreendida em sua dimensão de sintoma[5] das faltas e falhas psíquicas, sociais, e culturais. E como não há como se sustentar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, não há como se conceber uma dicotomia entre dentro e fora, percebe-se que todo sintoma pessoal é também social.

    Sendo assim, para melhor compreender e analisar tais fenômenos, é preciso contextualizá-los em sua dimensão histórica, dinâmica, cultural e multidimensional. Como sugere a psicanalista americana Jill B. Bloom (2008), “as ansiedades psíquicas na forma de preconceitos são, em um sentido, janelas para as ansiedades culturais. (…) O preconceito é tanto cognitivo quanto cultural, e tanto um processo consciente quanto inconsciente”. A autora nota ainda que: “concentrar a atenção nas dimensões históricas e culturais do preconceito revela a inadequação dos modelos de explicação descritivos, e demanda uma análise mais dinâmica, e eu advogo, uma análise psicanalítica”. (p. 6)

    As diversas formas de preconceito, e o fenômeno da intolerância em geral, devem ser entendidos portanto enquanto sintomas
    psíquicos, sociais e culturais – de estruturas sociais e culturais que marcam os encontros e desencontros do eu com o outro.

    C. Bases Educacionais para a Tolerância:

    Num texto bastante conhecido, denominado “Educação após Auschwitz”, Theodor Adorno (1969) propõe um exercício de “inflexão em direção ao sujeito”: “é preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos [bárbaros como em Aushwitz], é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente
    capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. (…) A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.” (p. 2-3)

    Mais importante do que tentar acabar com a intolerância, é portanto pensar em formas de se administrar e lidar com esse fenômeno, no eu tanto quanto no outro. O confronto com o outro – que é intolerante – necessariamente se inicia no confronto com si mesmo. Mais ainda, já que o outro é sempre sentido como uma ameaça que nos amedronta, a tolerância advirá do reconhecimento da impossibilidade de nos livrarmos da relação com o outro enquanto espelho de mim mesmo.

    V.         Considerações finais:

    Aqueles que, preocupados e ocupados em educar e formar novas gerações, buscam formas de fomentar a “Educação para a Tolerância”, precisam ocupar-se e preocupar-se em reconhecer antes de tudo nossa própria condição de humanidade, o preço e o prêmio de nossa existência, o possível e o impossível de nossas ações. A partir do reconhecimento dos limites e das possibilidades em cada um de nós, poderemos nos implicar nos rumos que este grande barco da cultura e da sociedade traçam,
    buscando o norte da tolerância e da com-vivência, da identificação e da aceitação, da sublimação coletiva a cada mal-estar
    individual, e da superação individual a cada mal-estar causado pela inserção faltosa no social.

    Se Freud, Lacan, Foucault e tantos outros pensadores nos têm ensinado que não existem sentidos completos e nem significados definitivos, isto aponta para a responsabilidade e a delícia que todos temos de fomentar a perspectiva da abertura, das
    resignificações e de novas possibilidades para a cultura e o coletivo que nos cerca e indaga. E mesmo quando e se não indaga, podemos contribuir, com a não neutralidade que nos cabe – pois é impossível ficar neutro ou impassível frente às constatações em relação aos fenômenos culturais e humanos, e especialmente, frente aos vários fenômenos e manifestações de intolerância que nos cercam.

    Bibliografia:

    Adorno, T. W. Educação após Aushcwitz. In: Palavras e Sinais. Modelos críticos 2. Petrópolis, Vozes, 1995 (1969).

    Bloom, J. B. “Contemporary conceptualizations of prejudice: a psychoanalytic perspective” [Teorizações contemporâneas do preconceito: uma perspectiva psicanalítica]. Latin American Journal of Psychopathology online. 5(1):32-43, May 2008.

    Dias, M. M. Laço Temporal. in Jacques Lacan: A Psicanálise e Suas Conexões, Quinet, A. (org). Rio de Janeiro: Imago Ed. 1993

    FREUD, S. Los Dos Principios del Funcionamiento Mental (Os dois princípios do Funcionamento Mental). in Obras Completas, Tomo II. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1910-1911 [1911].

    __________ Mas Alla Del Principio Del Placer (Mais além do Princípio do Prazer). in Obras Completas, Tomo III. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1919-1920 [1920].

    __________ El Porvenir de Una Ilusion (O Futuro de uma Ilusão). in Obras Completas, Tomo III. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1927.

    __________ El Malestar en La Cultura (O Mal Estar na Cultura). in Obras Completas, Tomo III. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1929 [1930].

    Fuks, B. B. Freud & A Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 2003.

    Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 1966– 1995.

    Laplanche, J. & Pontalis, J.-B. The Language of Psycho-Analysis. New York, WWNorton & Company Inc.: 1973.

    Mezan, R. Freud, Pensador da Cultura. São Paulo: Ed. Brasiliense: 1986

    Quinet, A. A Heteridade de Lacan. Rio de Janeiro, publicação online: www.robertexto.com. 2001. Baixado em 12/09/2010.

    ROTH, M. (org). Freud, Conflict and Culture – Essays on His Life, Work and Legacy. USA:  First Vintage Books Edition: 1998 [2000].


    [1] Quinet, Antonio: A Heteridade de Lacan (Texto apresentado no colóquio “2001- Uma odisséria lacaniana”, Rio de Janeiro, 11 de abril de 2001)

    [2] O conceito de “Perversão” como é utilizado em psicanálise equivale às ‘psicopatias’ do linguajar psiquiátrico, embora com
    algumas diferenças sobre sua origem e seus sintomas.

    [3] Estes 2 princípios foram inicialmente apresentados por Freud no texto: Os dois princípios do funcionamento mental, de 1911. Em 1920, no famoso texto “Mais Além do Princípio do Prazer”, Freud admite seu espanto e encanto com a realização de que não somos movidos apenas pela contraposição entre prazer e realidade (que nos obrigaria a comprometer e adiar o prazer), mas por algo maior, mais complexo, mais intenso, e que fica muito mais “além do princípio do prazer”, o qual ele denominou de “pulsão de morte”: nossa vida psíquica é portanto não apenas movida por forças amorosas, sexuais, de vida, como também por forças destruidoras, odiosas, de morte! Esta nova concepção freudiana modificou as mais importantes bases do pensamento
    psicanalítico.

    [4] Sublimação: processo postulado por Freud para englobar as atividades humanas que não tem conexão aparente com a sexualidade e possuem valor e reconhecimento social, mas que são consideradas como motivadas pelas pulsões sexuais (de
    vida), como por exemplo as criações artísticas e a aprendizagem. (Fonte: “The Language of Psycho-Analysis” [Dicionário da Psicanálise], by J. Laplanche & J.-B. Pontalis, 1973)

    [5] Sintoma aqui é utilizado no sentido psicanalítico, de sinal e de consequência de alguma outra coisa, anterior.

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