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“O POSSÍVEL & O IMPOSSÍVEL PERANTE A INTOLERÂNCIA”

Sheila Skitnevsky Finger

Texto publicado no Curso Virtual III – “Educação para a Tolerância”. Centro de Estudos em Psicanálise e Intolerância – CEPI, do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância – LEI, da Universidade de São Paulo – USP.

RESUMO: o presente texto argumenta que bases educacionais individuais e coletivas que visem a uma maior tolerância entre pessoas e entre grupos humanos necessariamente precisam partir do reconhecimento do mal-estar da cultura humana, e por extensão, do reconhecimento dos limites do que é ou não possível “sanar” em relação aos fenômenos de intolerância.

    I. Introdução

    A intolerância é um fenômeno humano e social, sintoma (no sentido de sinal, resultado) do conflito humano entre querer ser uno separado e querer pertencer, entre buscar a independência e buscar a aceitação pelos demais. A constituição do sujeito, a construção do EU, passa inegavelmente pela relação com o outro – a partir do primeiro vínculo significativo, a mãe. Ser todo e ter tudo, versus ser separado como um EU diferenciado, estas são as origens dos conflitos que nos fazem ser o que somos,
    mas também nos fazem sofrer para sempre. Preço e prêmio de nossa condição humana, vivemos no limite entre o impossível – de se libertar do outro, da dependência desta inter-relação – e o possível – todo o resto, quase uma infinidade de possibilidades.

    Impossível nos desfazer de nossa condição humana; mas possível fazer “mil e uma coisas” a partir dela. Para se pensar uma
    “Educação para a Tolerância”, uma formação cultural que privilegie a tolerância ao invés da intolerância, é necessário reconhecer os limites do possível e do impossível, e de formas de fomentar, dentro das possibilidades, a maior
    convivência – e com-vivência.

    Para traçar esse argumento, este texto aborda os seguintes temas: o que a psicanálise nos ensina sobre nós mesmos; o que a
    psicanálise nos ensina sobre a cultura humana; e o que estas contribuições psicanalíticas podem nos apontar em relação ao fenômeno da intolerância, e por extensão, às bases educacionais individuais e coletivas que visem a uma maior tolerância entre pessoas assim como entre grupos humanos.

    II. O que a Psicanálise nos ensina sobre nós mesmos:

    A psicanálise nos fez deparar com nossa divisão perene: somos seres divididos, cindidos entre o que queremos e o que buscamos; entre nobres motivações conscientes, e primitivas pulsões inconscientes e inconsequentes. Somos seres egoístas,
    individualistas e egocentrados, mas também seres sociais, gentis, e com um forte espírito de cuidado ao outro, de comunidade e de comunhão. Se desta divisão advém nossas frustrações, nosso sofrimento e nossa confusão, advém também nossa criatividade, nossa capacidade de ser e fazer apesar de nossas limitações, e de nos superar e re-inventar. Esta divisão subjetiva nos rege em todas as nossas relações, em nossas construções psíquicas, e em nossas visões de mundo e de nós mesmos.
    Além disso, somos seres sociais por excelência. Como nos fez notar Freud, somos os únicos seres vivos que após o nascimento, seguem por tanto tempo dependentes de um outro para sobreviver; não apenas nos primeiros anos de vida, mas somos
    eternamente dependentes da relação com outros, da linguagem consequente da socialização, e da cultura resultante de nosso processo de humanização. Portanto, a outra marca de nossa existência, essência de nossa natureza humana, se encontra na premissa de alteridade.

    Jacques Lacan, psicanalista francês e “re-leitor” de Freud, sempre fez questão de marcar o interesse e a consideração pelo outro,
    como nos faz notar Antonio Quinet, no texto “A Heteridade de Lacan”[1]:

    “Lacan desfaz a ilusão de completude, a pretensão de síntese e a miragem da unidade do EU, mostrando que eu é, antes de mais nada outro. E aquele que vejo na minha frente que penso ser outro é igual a mim. …Esse próximo que se me assemelha, e a quem me ensinaram dever amar, é antes um intruso.  Por ser igual é rival.  …  Esse outro é experimentado e percebido como um intruso que invade e rivaliza com o eu pelo mesmo lugar. No entanto é o eu que vem primeiramente usurpar o lugar do
    sujeito. Esse intruso, o eu, o sujeito o percebe como outro.” E ainda: “Esse outro que é meu semelhante é minha alteridade egóica, projeção narcísica de meu eu, espelho que me envia minha própria imagem a ponto de considerá-lo semelhante. Este outro se é alter, é alter-ego, nada mais do que meu ego alter-ado. Ele é o caramujo que encerra no âmago de sua carapaça imaginária o objeto que causa tanto meu ódio quanto meu maravilhamento.” (p. 1-2)

    O outro sou eu, como aponta Lacan; o outro odiado, repudiado, rejeitado, apenas representa meu mal-estar consequente da minha divisão e da marca da alteridade e da heteridade (de heteros, outro) em mim.

    A condição humana nos oferece um prêmio e um preço: o prêmio que recebemos por nossa humanidade representa todo o possível, a saber, o acesso a um amplo espectro cultural e as possibilidades de sublimação e interação que este espectro apresenta: linguagem, outras línguas, artes, conhecimento novo e acumulado, senso estético, criatividade, prazer,
    satisfação, desejo, busca por novos horizontes… Podemos pensar quem somos, onde nos encontramos; podemos ter noção do mundo em que vivemos, imaginar o que vai além do que nossos sentidos possam perceber. Temos acesso a esta ampla gama
    cultural, que alimenta nossa sede de troca e de inserção social.

    Todavia, pagamos um alto preço pela nossa humanidade: o acesso à cultura é limitado, nossa inserção é fadada a incompletude, nossa frustração e insatisfação é sempre presente: ao pensar, não conseguimos entender completamente; ao sentir, não
    conseguimos compreender nossos sentimentos; ao fazer, muitas vezes não nos reconhecemos em nossos atos, princípios ou motivações. Nos enganamos; nos confundimos; estamos sempre traindo nossos próprios princípios, sentimentos, pensamentos… Esta condição de falta, de incompletude, esta é a condição “impossível de curar” – como sabem bem os psicanalistas.

    A partir disso, e mesmo apesar do acesso a essa gama cultural que nós mesmos contribuímos para moldar e desenvolver, estamos sempre nos sentindo alheios, diferentes, aquém ou além; estrangeiros perante à cultura que nos cerca, mal-compreendidos e não inseridos. Almejamos a inserção social, mas sofremos para pertencer, e por pertencer. Nossa eterna briga com a alteridade, nosso desejo de nos fazermos donos de nós mesmos, conflitua-se com a marca deixada pelo desejo de se fazer através do desejo e do olhar do outro, em quem quisemos nos espelhar. Ficamos assim ‘neuroticamente’ intrigados pela
    dúvida: será que se eu fosse algo mais (ou menos), conseguiria ser feliz? Se eu tivesse X ou Y, alcançaria enfim algum reconhecimento? Se eu pudesse isso ou aquilo, poderia talvez desfrutar de alguma liberdade?

    Nesta resposta neurótica, nossa cisão e nosso mal-estar vão nos levando a criar fábulas, narrativas, invenções e adivinhações
    sobre como ser, como falar, como fazer, como desejar… Estas fantasias vão tentando dar conta de responder o que podemos ou não, o que devemos ou não, quais são os nossos limites, as nossas possibilidades, os nossos direitos e os nossos deveres.

    Se a neurose é o preço que pagamos pelo acesso à cultura e à linguagem, as alternativas, do ponto de vista psicanalítico, não
    são mais fáceis ou menos dolorosas. Sem entrar em mais detalhes, importante notar que Freud define como neuróticos todos aqueles que justamente têm acesso à cultura e à linguagem, e por isso sofrem um eterno mal-estar, estando sempre
    em conflito psíquico: eu versus o outro; amor versus ódio; união versus separação; alienação versus inclusão… A alternativa portanto à neurose se traduz em restrição ao que nos faz humanos, origem das várias psicopatologias do campo da psicose ou da perversão[2].

    III. O que a Psicanálise nos ensina sobre a cultura humana:

    Através da noção psicanalítica de que o ser humano é social em sua essência, e de que, todavia, um mal-estar permeia todas as
    relações sociais, a noção de cultura humana pode ser compreendida como a consequência psíquica coletiva deste dilema humano entre eu e o outro, entre o ser e o mundo que nos rodeia.

    Como nos aponta a psicanalista Betty B. Fuks (1993), “se é verdade que o principal legado de Freud foi a fundamentação de um método de cura, no qual um homem, falando para um outro, encontra alívio à dor e à angústia, também é certo que a psicanálise inovou, de forma radical e irreversível, o modo de se refletir e pensar a cultura.” (p. 7)

    Na verdade, Freud começou a repensar a cultura e o indivíduo a partir de suas desilusões com o espírito humano destrutivo e
    irracional que aflorou no coração da civilização européia, na Primeira Guerra Mundial. Como resume Fuks: “Ao se dar conta de que todos os empenhos culturais da história da humanidade foram insuficientes para drenar essa inclinação inevitável do sujeito à destruição, Freud… decidiu aprofundar suas reflexões sobre ‘a inclinação inata do ser humano ao ‘mal’, à agressão, à destruição e, com elas, também à crueldade.” E assim elaborou o conceito de pulsão de morte, cujo movimento visaria
    o retorno ao estado inanimado. A conceitualização da pulsão de morte enquanto contraponto às pulsões de vida ou sexuais substituiu a contraposição até então defendida por Freud, entre os princípios de prazer e realidade[3].

    A cultura humana passa então a ser vista na obra de Freud como consequência da constante busca de equilíbrio entre as pulsões de vida e a pulsão de morte – equilíbrio esse imprescindível ao sujeito e à civilização: “Quando [a pulsão de morte] é dirigida ao exterior do sujeito para prestar serviços à lógica do aniquilamento do outro – o que é a base de todas as guerras e do assassinato – a pulsão destrutiva dissolve e destrói tudo o que a vida e a cultura constróem” (Fuks, p. 39).

    Como também descreve o psicanalista Mauro Mendes Dias (1993): “No que concerne ao sujeito, o principal produto desse laço social instaurado pela civilização foi detectado por Freud: o mal-estar – é o que retorna ao sujeito ao ceder à exigência da renúncia pulsional imposta pela civilização”. (p. 183). Apesar do mal-estar inerente, a única solução viável para o homem sobreviver com suas pulsões, na cultura, é através do ato de sublimar[4]. A sublimação tem a qualidade de fortalecer os laços sociais entre os homens, promover mudanças e desenvolver as grandes criações culturais, como a religião, a filosofia, a ciência, a arte e os ideais.

    A cultura humana é portanto nossa forma desengonçada de domar a nossa natureza, transformando nossas pulsões destrutivas em ideias e recursos criativos, sofisticados e superiores.

    IV. O que estas contribuições psicanalíticas podem nos apontar:

    A. Posicionamento crítico: responsabilidade individual & coletiva

    Estamos acostumados a pensar a função do psicanalista dentro de sua prática clínica. Mas a psicanálise na verdade proporciona uma capacidade analítica tal que coloca o analista numa posição ética e cívica que vai além de seu consultório. Não se trata de transpor leituras clínicas individuais para o coletivo, mas sim de compreender o indivíduo contextualizado em seu meio social. O indivíduo não existe fora do meio -  ele é constituído pelas relações sociais, pela linguagem, e pela cultura que o permeia.

    A própria obra de Freud é um exemplo vivo de sua busca em considerar o referencial psicanalítico para pensar a cultura humana – de questões biológicas a espirituais, de questões sociais à religião, economia, política; e também sobre a guerra, a origem das organizações sociais, à filosofia, e assim por diante. Freud nos aponta para a coragem e a necessidade
    de um olhar ético, que desmembra e dissolve os sentidos visíveis, completos e fechados, para considerar cada sujeito e cada fenômeno humano em seu contexto histórico e social, em sua dimensão profunda e multidimensional, e em sua
    característica relacional.

    Mais ainda, em sua proposição de que o analista deve ser sempre crítico de sua cultura, Freud nos clama a que façamos resistência “a toda e qualquer visão de mundo capaz de impedir o sujeito – individual ou coletivo – de se expressar singularmente sobre o universal do amor, do ódio, da vida e da morte” (Fuks, p. 23). O movimento psicanalítico impõe assim ao
    analista o destino de tornar-se crítico da cultura que testemunha. “O analista não pode jamais ficar numa posição neutra na luta entre o obscurantismo da bárbarie e a cultura”, nos alerta Fuks (2003, p. 62). Esta é sua responsabilidade ética e cívica, que aponta para várias possibilidades de atuação, interpretação e ação no social.

    No plano coletivo e para além da clínica transferencial, é portanto dever do analista escutar e denunciar a impunidade
    requerida por quaisquer movimentos a favor da intolerância. Como nos chama a atenção Betty B. Fuks (2003), em seu livro “Freud & a Cultura”: “Freud foi categórico: o antídoto contra o traço compulsivo e indestrutível de assimilar, humilhar, destruir e infligir dores ao outro que a humanidade carrega é manter a chama do desejo de construir a vida permanente e infinitamente acesa” (p. 62)

    A psicanálise tem assim contribuído para se pensar não apenas o ser humano, mas também tudo o mais que lhe diz respeito: sua história, sua cultura, sua política e economia; suas incessantes buscas e indagações, suas frustrações, desejos e sofrimento. Não que a psicanálise, enquanto referencial teórico e filosófico, possa oferecer respostas e soluções prontas – muito pelo contrário, não se propõe e nem poderia responder, mas sim, oferecer instrumentos para questionar, analisar e formular as questões humanas mais diversas.

    Outrosim, enquanto prática de alteridade, a psicanálise aponta para a necessidade que temos de reconhecer e incluir o outro, para nos livrar de nosso destino de outra forma auto-destrutivo. Assim, pode e deve o psicanalista, sempre a partir de um
    fenômeno, buscar razões e conexões outras que a primeira vista passam desapercebidas. Partindo-se do princípio freudiano básico de que somos determinados pelo inconsciente, cuja característica é justamente estar além de nosso conhecimento e
    realização conscientes, a psicanálise busca seu objeto fora do visível, para incluí-lo, rompendo as ligações manifestas para fazer com que apareçam as conexões latentes; dissipando assim as significações articuladas e completas para que o sentido inconsciente possa emergir. Esta busca do sentido inconsciente, e das significações determinadas por causas que nos escapam e ao nosso controle, possibilita ressignifações que vão dirigindo o sujeito rumo a uma maior responsabilidade assim como maior
    liberdade sobre seu próprio destino.

    B. Psicanálise e Intolerância

    O que é possível frente à intolerância? Esta é uma pergunta que me coloco constantemente. Qual pode ser o alcance de nossa ação? Qual é o meu poder de mudança, e qual meu dever de intervenção?

    Quando me coloco a questão da intolerância, observo que algumas instâncias do intolerável me são mais difíceis de pensar, analisar, e encontrar um sentido do que outras. E isto me aponta à primeira característica fundamental do fenômeno da intolerância: que este é muito mais subjetivo do que objetivo; ou seja, que diz mais respeito acerca do sujeito que não tolera, do que do objeto que não é tolerado. Isto significa também que o que não tolero no objeto também diz mais respeito a mim do que ao objeto – geralmente porque possuo em mim tais características “intoleráveis”, e busco em objetos externos receptáculos para escoar o sentimento negativo, o ódio, que essas características, minhas, me provocam.

    Em psicanálise denonimanos de “projeção” o mecanismo de depositar fora algo que originalmente nos pertence para lidar com estes elementos como se fossem externos. Projeto para fora algo que me pertence, mas que eu preferiria que não estivesse ali. Ao colocar para fora, depositando num objeto externo, creio poder lidar com sua existência como se não me pertencesse, como
    se não me dissesse respeito.

    Do ponto de vista psicanalítico, consequentemente, o fenômeno da intolerância representa processos irracionais inconscientes e
    conscientes, que são também históricos e constituídos dentro e pela cultura. O fenômeno do preconceito não pode ser pensado como singular ou universal, mas como um fenômeno múltiplo, que aponta para vicissitudes sociais, históricas e culturais do tempo e espaço em que se manifesta. É neste sentido que a intolerância pode ser compreendida em sua dimensão de sintoma[5] das faltas e falhas psíquicas, sociais, e culturais. E como não há como se sustentar a dicotomia entre indivíduo e sociedade, não há como se conceber uma dicotomia entre dentro e fora, percebe-se que todo sintoma pessoal é também social.

    Sendo assim, para melhor compreender e analisar tais fenômenos, é preciso contextualizá-los em sua dimensão histórica, dinâmica, cultural e multidimensional. Como sugere a psicanalista americana Jill B. Bloom (2008), “as ansiedades psíquicas na forma de preconceitos são, em um sentido, janelas para as ansiedades culturais. (…) O preconceito é tanto cognitivo quanto cultural, e tanto um processo consciente quanto inconsciente”. A autora nota ainda que: “concentrar a atenção nas dimensões históricas e culturais do preconceito revela a inadequação dos modelos de explicação descritivos, e demanda uma análise mais dinâmica, e eu advogo, uma análise psicanalítica”. (p. 6)

    As diversas formas de preconceito, e o fenômeno da intolerância em geral, devem ser entendidos portanto enquanto sintomas
    psíquicos, sociais e culturais – de estruturas sociais e culturais que marcam os encontros e desencontros do eu com o outro.

    C. Bases Educacionais para a Tolerância:

    Num texto bastante conhecido, denominado “Educação após Auschwitz”, Theodor Adorno (1969) propõe um exercício de “inflexão em direção ao sujeito”: “é preciso reconhecer os mecanismos que tornam as pessoas capazes de cometer tais atos [bárbaros como em Aushwitz], é preciso revelar tais mecanismos a eles próprios, procurando impedir que se tornem novamente
    capazes de tais atos, na medida em que se desperta uma consciência geral acerca desses mecanismos. (…) A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica.” (p. 2-3)

    Mais importante do que tentar acabar com a intolerância, é portanto pensar em formas de se administrar e lidar com esse fenômeno, no eu tanto quanto no outro. O confronto com o outro – que é intolerante – necessariamente se inicia no confronto com si mesmo. Mais ainda, já que o outro é sempre sentido como uma ameaça que nos amedronta, a tolerância advirá do reconhecimento da impossibilidade de nos livrarmos da relação com o outro enquanto espelho de mim mesmo.

    V.         Considerações finais:

    Aqueles que, preocupados e ocupados em educar e formar novas gerações, buscam formas de fomentar a “Educação para a Tolerância”, precisam ocupar-se e preocupar-se em reconhecer antes de tudo nossa própria condição de humanidade, o preço e o prêmio de nossa existência, o possível e o impossível de nossas ações. A partir do reconhecimento dos limites e das possibilidades em cada um de nós, poderemos nos implicar nos rumos que este grande barco da cultura e da sociedade traçam,
    buscando o norte da tolerância e da com-vivência, da identificação e da aceitação, da sublimação coletiva a cada mal-estar
    individual, e da superação individual a cada mal-estar causado pela inserção faltosa no social.

    Se Freud, Lacan, Foucault e tantos outros pensadores nos têm ensinado que não existem sentidos completos e nem significados definitivos, isto aponta para a responsabilidade e a delícia que todos temos de fomentar a perspectiva da abertura, das
    resignificações e de novas possibilidades para a cultura e o coletivo que nos cerca e indaga. E mesmo quando e se não indaga, podemos contribuir, com a não neutralidade que nos cabe – pois é impossível ficar neutro ou impassível frente às constatações em relação aos fenômenos culturais e humanos, e especialmente, frente aos vários fenômenos e manifestações de intolerância que nos cercam.

    Bibliografia:

    Adorno, T. W. Educação após Aushcwitz. In: Palavras e Sinais. Modelos críticos 2. Petrópolis, Vozes, 1995 (1969).

    Bloom, J. B. “Contemporary conceptualizations of prejudice: a psychoanalytic perspective” [Teorizações contemporâneas do preconceito: uma perspectiva psicanalítica]. Latin American Journal of Psychopathology online. 5(1):32-43, May 2008.

    Dias, M. M. Laço Temporal. in Jacques Lacan: A Psicanálise e Suas Conexões, Quinet, A. (org). Rio de Janeiro: Imago Ed. 1993

    FREUD, S. Los Dos Principios del Funcionamiento Mental (Os dois princípios do Funcionamento Mental). in Obras Completas, Tomo II. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1910-1911 [1911].

    __________ Mas Alla Del Principio Del Placer (Mais além do Princípio do Prazer). in Obras Completas, Tomo III. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1919-1920 [1920].

    __________ El Porvenir de Una Ilusion (O Futuro de uma Ilusão). in Obras Completas, Tomo III. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1927.

    __________ El Malestar en La Cultura (O Mal Estar na Cultura). in Obras Completas, Tomo III. Spain: Editorial Biblioteca Nueva: 1929 [1930].

    Fuks, B. B. Freud & A Cultura. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 2003.

    Lacan, J. Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor: 1966– 1995.

    Laplanche, J. & Pontalis, J.-B. The Language of Psycho-Analysis. New York, WWNorton & Company Inc.: 1973.

    Mezan, R. Freud, Pensador da Cultura. São Paulo: Ed. Brasiliense: 1986

    Quinet, A. A Heteridade de Lacan. Rio de Janeiro, publicação online: www.robertexto.com. 2001. Baixado em 12/09/2010.

    ROTH, M. (org). Freud, Conflict and Culture – Essays on His Life, Work and Legacy. USA:  First Vintage Books Edition: 1998 [2000].


    [1] Quinet, Antonio: A Heteridade de Lacan (Texto apresentado no colóquio “2001- Uma odisséria lacaniana”, Rio de Janeiro, 11 de abril de 2001)

    [2] O conceito de “Perversão” como é utilizado em psicanálise equivale às ‘psicopatias’ do linguajar psiquiátrico, embora com
    algumas diferenças sobre sua origem e seus sintomas.

    [3] Estes 2 princípios foram inicialmente apresentados por Freud no texto: Os dois princípios do funcionamento mental, de 1911. Em 1920, no famoso texto “Mais Além do Princípio do Prazer”, Freud admite seu espanto e encanto com a realização de que não somos movidos apenas pela contraposição entre prazer e realidade (que nos obrigaria a comprometer e adiar o prazer), mas por algo maior, mais complexo, mais intenso, e que fica muito mais “além do princípio do prazer”, o qual ele denominou de “pulsão de morte”: nossa vida psíquica é portanto não apenas movida por forças amorosas, sexuais, de vida, como também por forças destruidoras, odiosas, de morte! Esta nova concepção freudiana modificou as mais importantes bases do pensamento
    psicanalítico.

    [4] Sublimação: processo postulado por Freud para englobar as atividades humanas que não tem conexão aparente com a sexualidade e possuem valor e reconhecimento social, mas que são consideradas como motivadas pelas pulsões sexuais (de
    vida), como por exemplo as criações artísticas e a aprendizagem. (Fonte: “The Language of Psycho-Analysis” [Dicionário da Psicanálise], by J. Laplanche & J.-B. Pontalis, 1973)

    [5] Sintoma aqui é utilizado no sentido psicanalítico, de sinal e de consequência de alguma outra coisa, anterior.

    TRIBUTO de JANUSZ KORCZAK ao AMOR e às CRIANÇAS

    Janusz Korczak foi um famoso e importante médico, autor e ativista pelos direitos das crianças, na Polônia antes da Segunda Grande Guerra. Nascido judeu, de nome verdadeiro Henryk Golszmit (1878 – 1942), começou a escrever contos com o pseudônimo de um herói infanto-juvenil da época, “Janusz Korczak” – uma espécie de “Harry Potter” polonês. Como médico e educador, revolucionou as formas de pensar e de tratar as crianças e adolescentes! Trabalhava com crianças, inclusive em orfanatos. Manteve um orfanato em Varsóvia, para crianças judias de famílias de poucos recursos, onde aplicava suas ideias revolucionárias em relação à educação democrática. Sofreu discriminação enquanto judeu, mas era famoso sob o pseudônimo (não judaico) de Dr. Korczak. No rádio, inventou programas de e para crianças, e seus livros infantis e infanto-juvenis encantaram diversas gerações!

    Acabou ficando um pouco mais conhecido pela maneira como morreu, com suas 200 crianças, nos campos de concentração de Treblinka em 1942.

    “Médico, escritor, educador, toda a vida de Korczak foi marcada pelo amor que dedicava às crianças.”

    Do livro “Como amar uma criança” (com várias traduções para muitas línguas, do original em Polonês ‘Jak Kochacdziecko’, 1958) – tradução para o português: Editora Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1983.

    Compartilho abaixo dois trechos deste seu livro, que apesar da distância temporal e geográfica, ainda nos fala diretamente ao coração, sobre como entender e “como amar uma criança”…!

    Páginas 62 e 63:

    ‘Quando vejo um bebê abrir e fechar uma caixa, colocar dentro uma pedra, tirá-la, colocar outra vez, depois de sacudir a caixa para escutar o barulho que faz; quando o vejo com um ano puxando um banquinho, cambaleando sobre suas pernas pouco firmes, sob um peso que ultrapassa suas forças, ou com dois anos, dizer “muuuu” vendo uma vaca, depois acrescentar “ada muuuu”, porque “ada” é o nome que ele dá ao cachorro da casa; quando penso na lógica destes erros de linguagem dignos de serem anotados e publicados…

    Quando, no bolso de um garoto descubro pregos, barbante, pedaços de vidro e que ele me explica “que tudo isto um dia pode servir para alguma coisa”; quando o vejo trabalhar, se apressar, organizar jogos; desafiar um amigo para ver quem salta mais longe; quando ele me pergunta: “Se eu penso numa árvore, será que quer dizer que tenho uma árvore minúscula na cabeça?” Ou quando ele dá a seu avô todas as economias, porque “o coitado está tão velho que sem dúvida não viverá mais muito tempo…”

    Quando surpreendo um adolescente que alisa os cabelos com a ajuda da saliva no dia em que ele espera a visita da amiga de sua irmã; quando uma mocinha me escreve que o mundo é detestável e as pessoas iguais aos animais, mas não me diz porque; quando um adolescente revoltado, maravilhado por uma ideia que é apenas um lugar comum, joga-a na face do mundo como um desafio…

    ABRAÇO TODAS ESSAS CRIANÇAS COM O MEU OLHAR E COM O MEU PENSAMENTO: oh! Maravilhoso mistério da natureza, quem são vocês, o que vocês nos trazem? Eu os abraço com toda a minha afeição: como posso ajudar vocês? Eu os abraço como um astrônomo abraça uma estrela que existiu, que existe, que existirá. Um tal beijo vale o êxtase de um cientista e uma humilde oração. …’

     

    Páginas 145 e 146:

    ‘O amor.

    A Arte fez dele um deus e um louco colocando-lhe asas ou camisa-de-força, sentando-o num trono ou fazendo-o provocar os que passam na rua, ele fez mil loucuras, passando da adoração ao ultraje. A ciência, depois de pôr seus óculos, inclinou sua fronte calva sobre a fisiologia do amor, observando, antes de tudo, os seus abcessos. O papel do amor será o de “conservar a espécie humana”? Sem dúvida, mas com esse conceito nós o empobrecemos tristemente. A astronomia, depois de descobrir que o Sol brilha e dispende calor, procura saber mais sobre ele.

    Por tudo isso, chegamos à conclusão de que o amor é algo um pouco suspeito: um pouco louco, um pouco sujo, muitas vezes um pouco ridículo. Somente a ligação conjugal legítima e procriadora obteve nossa complacência.

    Sorrimos quando vemos um menino de seis anos oferecer metade do seu doce para a amiguinha; quando uma mocinha enrubece ao cumprimento de um rapaz na rua; quando um adolescente mostra para todos o retrato de sua bem-amada; quando uma garota se precipita para abrir a porta ao professor de seu irmão.

    Mas não gostamos quando os surpreendemos brincando silenciosamente num canto, ou rolando por terra, sem folêgo, num corpo a corpo apaixonado.

    E realmente ficamos possessos quando o amor de nossa filha ou filho contraria nossos projetos.

    Rimos quando o amor ainda está longe, inquietamo-nos quando parece se aproximar e zangamo-nos quando falseia nossos cálculos. Ferimos nossos filhos com nossas caçoadas e suspeitas, quando zombamos da pureza de seus sentimentos.

    Então se escondem para se amar.

    Ele a ama porque se parece com a madona da igreja do bairro, porque é pura e bela e não se parece em nada com a prostituta que um dia viu na soleria de uma porta.

    Ela o ama porque ele lhe disse que se casaria com ela, e não a obrigaria a se despir diante dele; se contentaria em beijar suas mãos; um dia ela permitiria que ele a beijasse de verdade.

    Eles conhecem todas as formas de amor, menos aquela da qual suspeitam os adultos.

    - Em vez de namorar, seria melhor… correndo atrás das meninas, você acabará…

    - Por que eles estão sempre espiando a gente, nos ameaçando?… Será errado gostar mais de alguém que de seus pais? Talvez o pecado seja isso?

    Não é preciso chegar à puberdade para conhecer o amor. Uns sabem amar desde pequenos, outros caçoam desse sentimento, e isso acontece sejam eles adultos ou crianças.’

    Enfim, obrigada caro Dr. Korczak, por essas e tantas outras “chamadas” para que vejamos cada um com suas peculiaridades individuais, ao mesmo tempo compreendendo que cada um é um mundo, um intricado e interessante universo, a ser descoberto, conhecido, explorado mas também, respeitado em suas características especiais!

    E fica aqui essa recomendação de leitura, para este livro maravilhoso!

    Com carinho,

    Sheila Skitnevsky Finger

    Publicado no Instituto do Amor, em novembro 7th, 2011

    http://www.institutodoamor.com.br/instituto/?p=1263

    Bullying: quem sofre?

    Nestes dias tenho me visto bastante diante do assunto de bullying, e resolvi compartilhar algumas reflexões.

    Este assunto tem recebido uma atenção de certa forma inédita, tanto entre o público geral quanto na mídia. Escolas oferecem palestras para esclarecer o conceito de bullying e o que pode ser feito a respeito; famílias se assustam com histórias que ocorrem entre crianças, nas escolas, nos clubes, nos grupos, e temem pela segurança dos seus filhos, torcendo para que eles não virem as próximas “vítimas” deste fenômeno; e crianças e adolescentes ficaram mais atentos e alertas, muitos temendo que ocorra algo parecido com eles, outros reconhecendo para si mesmos que talvez isto já tenha ou esteja acontecendo com eles também…

    Algumas pessoas declaram: “é a nova moda”. Outros ponderam: “isto sempre aconteceu, mas não se falava disso”. Alguns preferem diminuir a importância: “aconteceu com muitos de nós, mas e daí, sobrevivemos, não?!”.
    O que podemos pensar a partir deste inédito interesse no assunto? Será que sabemos dizer e reconhecer o que é o tal fenômeno de bullying? O que muda em nossa vida? O que tiramos disto?

    Primeiro de tudo é importante diferenciar o fenômeno de bullying de outros comportamentos infantis e infanto-juvenis, que apesar de ser desagradáveis ou até agressivos, não necessariamente se qualificam como bullying.

    Bullying tem sido definido como padrões de comportamento agressivo e repetitivo com o objetivo de prejudicar alguém. Inicialmente definido em relação a crianças e adolescentes, tem sido também inclusivo a adultos, em ambientes de trabalho, em família (entre irmãos ou entre familiares), entre professores e alunos, ou até entre vizinhos ou membros de comunidades.

    É importante notar que esta nova leitura, compreensão e nomeação de um fenômeno que de fato sempre ocorreu na história da humanidade, tem permitido um reconhecimento das consequências e do sofrimento das vítimas de bullying, consequências que vão de aspectos emocionais – baixa auto-estima, insegurança, pensamentos persecutórios, ansiedade, medo de lugares e pessoas novas, depressão, até ideias suicidas – a sintomas físicos, como dores de cabeça e estômago, perda de apetite, sudorese, batimentos cardíacos acelerados, dores generalizadas, mal-estar, ataques de angústia, insônia, e assim por diante.

    Mas também tem sido mais e mais reconhecido que não sofrem apenas as vítimas diretas do bullying! São necessariamente três grupos de pessoas que participam deste fenômeno, a saber: os agressores, as vítimas, e as testemunhas, ou platéias.

    As vítimas, como descrito acima, sofrem pelas agressões, pela impotência, pela auto-segurança… Mas as testemunhas também sofrem ao se ver diante da própria impotência – seja de se defender (qualquer um pode ser a próxima vítima) ou de defender o próximo. Alguns tentam defender colegas, amigos, familiares – às vezes com sucesso, pois os agressores, quando sentem-se em desvantagem, muitas vezes ficam acuados e desistem da agressão. Outros se defendem posicionando-se de forma neutra ou até participativa às agressões, na tentativa de não virar a próxima vítima.

    Finalmente, é importante notar também que os agressores muitas vezes agridem, provocam, são violentos, porque de alguma forma estão sofrendo, e o fazem como forma de “descontar” seu sofrimento; ou de “esconder”, mascarar, para si e/ou para os outros o que lhe incomoda, e que algo que faz sofrer. O fato é que esse comportamento pode e deve ser entendido como um sinal de que algo não está bem, e precisa ser resolvido, encarado.
    Com isso não quero dizer que temos que aceitar o comportamento de bullying, ou simplesmente desculpar os agressores. Mas precisamos entender que TODOS SOFREM com esta situação! E não basta separar os agressores, se distanciar, taxá-los de maus ou rejeitá-los.

    De fato, muitas vezes as pessoas acabam assumindo diferentes destas posições – de agressor, vítima, testemunha – em diferentes situações. Quantos de nós já não participamos, consciente ou incidentalmente, de rechaçamentos grupais, seja de indivíduos ou de grupos? Um chefe que não era tolerado… Um membro da família “pego para santo”, por suas atitudes irritantes, tidas como diferentes ou contra a “cultura” do grupo… Uma criança difícil… Um adolescente difícil…

    Portanto, é importante compreender o fenômeno de forma dinâmica – quem se posiciona de que forma nesta situação? Por que? O que sinaliza? E mais importante: Como podemos acolher o sofrimento de cada um envolvido nestas situações, e como ajudá-los a mudar de comportamento e diminuir o sofrimento?
    Uma mensagem há de ser clara: a agressão, a provocação, a discriminação deve ser INTOLERÁVEL, INACEITÁVEL!

    Não podemos “acolher” o comportamento discriminatório!
    Mas acolhemos as pessoas envolvidas, acolhemos o sujeito por trás do comportamento inaceitável.
    Voltamos ao conceito de AMOR COM FIRMEZA – amar não é aceitar tudo.
    Amar dá trabalho! Mas o resultado vale a pena!

    Grande abraço a tod@s,
    Sheila Skitnevsky Finger
    Instituto do Amor

    Será que cabe mais amor na nossa vida?

    Momentos de transição por aqui. Fora a vida super cheia que já tenho, estou começando um novo emprego e vou comprar um cachorro para meu filho e para eu cuidar e amar, é claro.  Demorei muito para tomar essa decisão. Todo mundo que tem filho pequeno já sentiu essa pressãozinha… Mãeee, eu quero um cachorrinho. Compra, vai…  E o coração de mãe fica bem dividido. Cachorro? Tem que educar, levar para passear, comprar ração, levar para tomar vacina. Isso se tudo correr bem, fora quando o cachorro fica doente e tem que tomar antibiótico, se machuca. Já tive cachorro e já tive gato e sei muito bem o tamanho da encrenca. Não posso culpar ninguém por essa escolha puramente emocional. Meu filho é filho único, irmãozinho não vai rolar mesmo nessa altura do campeonato. Ele fez 7 anos esse ano, saindo oficialmente da primeira infância. Na Antroposofia,  a cada sete anos entramos em um novo ciclo de vida. Coincidência ou não, eu também estou entrando em um novo setênio. Os dois prontos para novas aventuras.

    O cachorro já nasceu. Vai chegar com 40 dias na semana do Pessach , no sábado de Aleluia.  Pessach é uma festa da passagem – da escravidão para liberdade do povo judeu. Cheia de lembranças tristes, mas também cheia de esperança.  A Páscoa também marca a passagem de Cristo, da morte para a vida eterna. Enfim, meu cãozinho chega na semana certa. Vem para marcar muitas mudanças: o fim da primeira infância do meu filho, a passagem para uma vida mais madura, de responsabilidade e aprendizagem. Eu também inicio um novo um ciclo, o sétimo setênio  é a fase da crise biológica, nova adolescência. Nesse momento, o ser humano desenvolve a coragem para atuar, aumenta-se a capacidade de altruísmo (fazer o bem) e de correr riscos. Tudo indica que estamos prontos para esse novo ser que entra na nossa vida para nos trazer tudo que uma nova relação pode significar.  Não tenho ilusões que vai ser tudo florido. Mas tenho a esperança que vamos saber lidar com os desafios com amor, humor e sabedoria. Talvez seja essa a grande lição.

    Tania Novinsky

    * Publicado no Instituto do Amor

    Desafios de Ter Filhos na Pós-Modernidade

    Desafios da Pós-Modernidade

    O ato de se tornar mãe revoluciona não apenas a vida da mulher que optou por dar à luz, mas todo o esquema familiar e profissional a que ela pertence. Principalmente neste momento histórico em que as mulheres se capacitam para ter um papel no mundo social, desenvolvem competências profissionais e adquirem independência econômica antes do casamento, a maternidade rompe com a construção da identidade profissional e social.

    Nestes novos tempos é possível escolher quê estilo de vida queremos ter, os papéis que queremos exercer, e que atividades queremos desenvolver. Todavia, a possibilidade de tantas escolhas e opções não necessariamente torna a nossa vida mais fácil… Mulheres podem trabalhar fora, podem construir uma carreira, podem obter satisfação na vida profissional; mas como combinar casa e trabalho? Como combinar satisfação profissional com satisfação familiar e pessoal? Onde está o equilíbrio? Quais as novas possibilidades, e quais os limites para a mulher de hoje?

    No desafio da vida moderna, esta mulher precisa conciliar as suas aspirações maternais a toda uma gama de obrigações pessoais e profissionais. Sem uma administração eficiente, esta situação múltipla acaba por gerar conflito, desgaste e estresse.

    Em resumo, a era pós-moderna é uma época de liberdade e responsabilidade, de novas possibilidades e novos desafios. E para mães e pais, é tempo de se reinventar – pois somos nós, pais e mães de hoje, que estamos galgando os caminhos pelos quais passarão nossos filhos e netos; cabe a nós contribuir para um futuro de possibilidades mais amplas porém possíveis. Portanto, a pós-modernidade é marcada pela confluência entre tudo o que se tornou possível, e a falta de definições claras. Ou, dito de outra forma, tudo hoje é uma questão de escolhas; esse é o desafio, mas também a maravilha para os pais de hoje!

    Família Pós-Moderna:

    A familia pós-moderna não nasceu assim; há um contexto, uma história. É importante entender como chegamos até aqui, para visualizar para onde queremos e podemos ir.
    Antigamente ser mãe era “natural”, ou seja, a maternidade era vista como a principal função e identidade a ser almejada pelas mulheres. Porém, em nossa era pós-feminista, ter uma carreira ou atividade passou a ser esperado das mulheres e pelas mulheres. Enquanto as expectativas da sociedade em relação às mulheres mudaram, o suporte que a mulher recebe – seja do marido ou da família, e de modo geral da sociedade – seguramente não acompanhou esta evolução das expectativas do papel da mulher.

    A modernidade já se vai no tempo, época em que as mulheres descobriram a possibilidade de se igualar ao homem, de buscar realizações para além das atividades domésticas e familiares. O movimento feminista possibilitou muitas aberturas para as mulheres, e até hoje ainda estamos reinventado a educação dos filhos. Muitas são as equações que integram o cotidiano dos pais de hoje – múltiplas funções, imposição social quanto a carreira ou atividade profissional, conhecimento sobre teorias e técnicas de educação, e assim por diante.

    Hoje espera-se da mulher que se realize dentro e fora de casa, que seja uma mãe presente, competente, educadora e eficaz, mas que também se preocupe com sua identidade pessoal, que se cuide, que esteja bem resolvida, que ganhe dinheiro e contribua com as finanças de casa, etc. Nossa geração foi educada para pensar e almejar uma carreira profissional ou uma atividade gratificante. E para a maior parte das mulheres, ser mãe e formar uma família segue sendo uma prioridade. Para o pai de hoje também houveram mudanças em relação à possibilidade de participar presente e ativamente na educação dos filhos e na vida familiar.

    Concluimos portanto que a mulher saiu de casa e multiplicou seus papéis, enquanto o homem se interessou mais pela educação dos filhos; mais ainda, através da pediatria, psicologia, psicanálise e teorias do desenvolvimento, as crianças também passaram a ter uma nova importância familiar e social, e passaram a receber um olhar mais cuidadoso. Portanto enquanto os papéis dos pais se multiplicaram dentro e fora de casa, criou-se uma nova e maior demanda para se olhar, entender, educar e se relacionar com os filhos. A questão é que enquanto existem agora mais opções e mais informações em como se educar e criar os filhos, dadas as demandas mais exigentes, existem poucos modelos prontos. Hoje, os filhos vem se transformando no maior projeto de vida dos pais e de quem os rodeia, e aí mora o perigo do “filhocentrismo”.

    Por outro lado, com a diminuição da influência da comunidade para com cada família, aumentou a importância dos pais e educadores diretos enquanto modelos – de estar no mundo, de se relacionar com outras pessoas e com o ambiente, de se relacionar com a busca de conhecimento e de informações, com a aprendizagem e o processo civilizatório. São os pais de hoje (e/ou aqueles que exercem as funções maternas e paternas para as crianças) os principais modelos de pessoa para os filhos; é quem os ensina como ser e buscar o que almejam, a desenvolver os próprios talentos e aspirações, e a encarar seus desafios e obstáculos.

    O desenvolvimento e a manutenção da dimensão pessoal de cada mãe e pai é fundamental tanto para a própria saúde mental e integridade emocional, quanto enquanto modelo de pessoa para os próprios filhos. Ensiná-los por modelo como ser e buscar o que almejarem, desenvolvendo seus próprios talentos e aspirações, encarando seus desafios sem se deixar abater, todos esses são ensinamentos que influenciam na formação dos filhos. Estar presente e disponível é fundamental. Mas ter momentos de ausências para se buscar realizar os próprios projetos pessoais e/ou profissionais – dadas as condições apropriadas para que as crianças estejam sendo bem cuidadas e assessoradas – é também fundamental.

    Como Lidar com essa nova realidade

    Propomos a seguir algumas estratégias possíveis para auxiliar os pais neste processo de educar, que requer estar ativamente envolvido, sem perder de vista a preocupação consigo próprio, enquanto pessoa, e enquanto MODELO de pessoa para os filhos:

    1) Olhar Bi-Focal – presente versus futuro: manter um olhar, uma perspectiva bi-focal, onde ora privilegia-se o presente, o aqui-e-agora, ora privilegia-se o futuro, o que virá, o que será.

    2) Combinação de recursos: é preciso compreender e aceitar que para cada família haverá uma combinação possível e específica. O que é possível e desejável para alguns não o é para outros. Não existem fórmulas mágicas: para se alcançar uma combinação eficaz há que se levar em conta o contexto e os recursos de cada mãe, pai, da família, de cada sistema.

    3) “Vida-bilidade”: criamos o conceito de “vida-bilidade”, ou seja, de pensar a viabilidade da vida de cada um ou grupo. Trata-se portanto de buscar maneiras de tornar a vida mais viável para si e para a família, incorporando os valores, os projetos, as aspirações, assim como a realidade e as limitações pessoais e familiares; enfim, maneiras de tornar sua vida mais viável, dentro da realidade de sua realidade. Para se criar vida-bilidade, algumas premissas se fazem necessárias, como: manter expectativas realistas; ser flexível e criativo; saber priorizar tarefas, interesses e objetivos; utilizar ajuda (delegar, sabendo identificar o quê e a quem); aprender a organizar e administrar as várias funções e os vários papéis; manter constante reavaliação do processo sobre o que está e o que não está funcionando; se divertir. Em suma, lembrar que sempre existe um leque de opções; portanto dentre este leque, tentar eleger o que poderá promover maior vida-bilidade.

    Reflexões finais

    Na experiência pós-maternidade, passa a ser imprescindível reorganizar o novo cotidiano, pois assim como outras experiências, a maternidade nos desorganiza e nos pressiona a rever nossos valores, princípios, e até mesmo aspectos que pensávamos “resolvidos” de nossa identidade. Todavia, faz-se importante lembrar que crise também oferece oportunidade, portanto, pode-se, deve-se tomar essa desorganização como uma grande oportunidade de melhorar. Ou seja, se é verdade que mudanças causam angústia, também trazem liberdade, e são portanto ótimas oportunidades de crescer, de se re-inventar, e de se superar!

    [1] Sheila Skitnevsky-Finger, psicóloga, psicanalista, com doutorado em Psicologia pela Massachusetts School of Professional Psychology, em Boston, USA (2004). Atende em consultório particular na Vila Madalena, em São Paulo; é sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa; e é pesquisadora pelo Centro de Estudos em Psicanálise e Intolerância – Cepi/LEI da USP. Tania Novinsky Haberkorn, psicóloga, psicoterapeuta, com mestrado em Psicologia Clínica pela Universidade Antioch de Los Angeles, CA, em 1996. Atende em consultório particular no Brooklin, em São Paulo; é sócia fundadora do Instituto Mãe Pessoa.
    [2] O Instituto Mãe Pessoa oferece cursos e treinamentos cujo objetivo é possibilitar um espaço para reflexão e conhecimento em busca de novas maneiras de abordar, reinventar, e administrar criativamente, a questão da educação e da maternidade nos dias de hoje. Visando atender os vários locais onde se encontram as mães de hoje, o Instituto Mãe Pessoa oferece versões In Company, nas empresas; In House, em clínicas, clubes, condomínios, escolas e afins; e In Clinic, no consultório. Mais informações pelo site: http://www.maepessoa.com.br/ ; blog: http://maepessoa.blogspot.com/ por e-mail: contato@maepessoa.com.br ou telefone 11 – 3804 3167 begin_of_the_skype_highlighting 11 – 3804 3167 end_of_the_skype_highlighting.

    * Artigo publicado na revista da Escola de Pais do Brasil, junho de 2009

    Livros que a Mãe Pessoa recomenda

    • A Máscara da Maternidade -Susan Maushart
      Criar filhos talvez seja a tarefa mais difícil que as mulheres realizam na vida. O papel de mãe é diferente, em grau e estilo, de qualquer outro papel desempenhado por uma mulher. Deixando de lado a questão do “instinto”, a maternidade é algo em que as mulheres são impelidas a pôr todo o seu ser: corpo, alma, inteligência e espírito. Depois que a mulher se torna mãe, sua personalidade e suas relações afetivas nunca mais serão as mesmas – a presença da criança transforma completamente a visão que a mulher tem de si mesma, afeta o casamento e a vida do casal.
      A autora, Susan Maushart, revela neste livro o quanto as mulheres estão despreparadas para a maternidade. Não só para a trabalheira insana, mas, sobretudo, para conflitos e transformações profundas que vêm junto com ela. Poucas mães mencionam a crise psíquica que envolve o nascimento do primeiro filho, o despertar de sentimentos enterrados há muito tempo sobre a própria mãe, a mistura de poder e impotência, a sensação de ser levada, por um lado, e de tocar novas potencialidades físicas e psíquicas, por outro.
      A Máscara da Maternidade oferece uma visão realista dos bastidores do que é ser mãe hoje em dia – da gravidez e do parto ao malabarismo que é a vida das mães que trabalham fora.
      Uma reflexão profunda que faz pensar que medos, frustrações e confusões dos primeiros tempos da maternidade não são prova de fracasso pessoal, mas do fracasso de expectativas extravagantes e de demandas conflitantes.
      Autor(a): Susan Maushart
      Páginas: 336
      Editora: Melhoramentos
    • A Maternidade e o Encontro com a própria Sombra – Laura Gutman
    • Mamãe Vai Trabalhar e Volta Já – Inês De Castro
      Mamãe vai trabalhar e volta já – mostra que carreira e maternidade não precisam ser inimigas. Ao contrário – quando andam de mãos dadas fazem das mulheres vencedoras imbatíveis
    • O Conflito – A mulher e a mãe – Elisabeth Badinter
      Editora: Record

    Estes são livros que tentam mostrar os desafios que essa escolha acarreta na vida da mulher hoje em dia. Como todos os livros tem suas limitacões e generalizacões, voce vai ter que ler e usar seu filtro pessoal e usar o que serve para voce! Portanto são livros para começar a pensar nestas questões.

    Nova Parceria: Builders Escola Bilingue

    Foi com imenso prazer que realizamos o workshop: “Relacionamento & Comunicação entre Pais e Professores” na Escola Builders para os professores e staff da escola dia 30 de setembro de 2010.

    Teste – Você acha que está preparada para ser mãe?

    Tente responder com sinceridade se concorda ou não com cada uma das reflexões abaixo, e se reconhece nelas, ou não, alguma importância para a experiência de ser mãe. Para cada alternativa, marque SIM, NÃO ou TALVEZ.

    Eu comigo:

    a) Sei me posicionar diante do que preciso e desejo, mas também sei ser flexível diante das dificuldades e impossibilidades.
    b) Estou preparada emocionalmente para me colocar em segundo plano e mudar minhas prioridades. Entendo que tudo poderá ser transformado a partir da experiência de ser mãe.
    c) Meus projetos pessoais e profissionais talvez precisem ser repensados. Quando o bebê chegar vou precisar tratar, de forma diferente, questões como tempo, dinheiro, planejamentos e assim por diante.

    Eu e o bebê:

    a) Estou preparada para ser um modelo de pessoa para meu filho.
    b) Já entendi que a relação com meu bebê me modificará de maneiras que ainda nem consigo imaginar, mas sei que fará me rever e me reinventar enquanto mulher e ser humano.
    c) Ser uma boa mãe não é ser perfeita nem o tempo todo presente. Quero saber dosar o tempo (com qualidade) que vou destinar ao meu filho, aos meus relacionamentos e a mim mesma.

    Eu com meu companheiro:

    a) Nossa relação conjugal é firme o suficiente para sobreviver ao inevitável bombardeio causado pela chegada dos filhos.
    b) Estamos cientes de que as privações de sono e o cansaço físico minarão nossa harmonia sexual e conjugal (pelo menos temporariamente).
    c) Sabemos que o casamento não necessariamente determina as mudanças em relação à forma como vivemos nossas vidas, mas que a chegada dos filhos causa a necessidade de nos responsabilizarmos de verdade.

    Eu com os outros:

    a) Tem alguém, na minha rede de relacionamentos, que está disposto a me aceitar, a não me julgar, a me ajudar, e é flexível entre o apoio que me oferece e o que de mim recebe.
    b) Tem alguém (parceiro ou pessoa próxima) que está pronto para tentar me compreender e me ajudar a aceitar as mudanças físicas, biológicas, hormonais e psicológicas.
    c) Todas as relações humanas são ditadas por contratos sociais, ora verbais ora não verbais. Em qualquer relacionamento mais intenso, há que se reconhecer e priorizar o que precisamos, analisar se estamos pedindo para a pessoa certa, e comunicar o que esperamos, com abertura para ouvir o outro e ser flexível. Geralmente consigo me comunicar bem sobre o que e como espero ser ajudada.

    Eu e o mundo:

    a) Meu trabalho e minhas prioridades profissionais talvez sofram modificações, pelo menos temporariamente, e aceito que o meu foco mude, enquanto for necessário.
    b) Se preciso for, em prol da minha relação com meu filho, posso examinar outras oportunidades e possibilidades de projetos – pessoais ou profissionais.
    c) Estar no mundo tem tanto a ver com minha carreira, quanto com outras atividades que vão além do cuidado do bebê.

    Como calcular:

    Marque 2 pontos para cada SIM, 0 ponto para cada NÃO e 1ponto para cada TALVEZ. Depois, some os pontos e confira o resultado. Mas, lembre-se: este teste é apenas um indicativo de que algumas coisas precisam ser levadas em conta. Por isso, é importante refletir melhor sobre as questões marcadas com oNÃO e o TALVEZ.

    Resultados:

    Sim (22 a 30 pontos)

    Tudo indica que você está bastante consciente sobre o que a chegada de um bebê pode acarretar na sua experiência pessoal, na sua relação conjugal e com os outros, e está aberta para as acomodações que provavelmente serão necessárias. Mesmo assim, saiba que tudo pode ainda vir a ser diferente do que você imagina. O importante é lembrar que você não precisa fazer tudo sozinha. Informe-se e lembre-se de compartilhar as delícias e os desafios com pessoas que possam te apoiar.

    Talvez (10 a 21 pontos)

    Parece que você já tem alguma ideia das possíveis dificuldades desse processo de virar mãe. Mas há ainda algumas questões importantes que talvez não tenha considerado. Olhe com mais atenção para as reflexões nas quais você marcou “não”, e tente visualizar melhor o que está faltando para que haja espaço e estrutura para a chegada de um bebê.

    Não (0 a 9 pontos)

    Calma, vamos lembrar que nada disso quer dizer que você não está preparada, ou que não nasceu para isso. É bem possível que você nunca tenha levado em conta aspectos mais reais e, talvez, dolorosos da experiência de ser mãe. Mas ainda dá tempo de se preparar com mais objetividade. Converse com outras mães, leia livros, revistas e, se preciso, procure profissionais especializados, como psicólogos, doulas, pediatras ou obstetras.

    * TESTE ELABORADO PELAS PSICÓLOGAS SHEILA SKITNEVSKY-FINGER E TANIA NOVINSKY HABERKORN, SÓCIAS-FUNDADORAS DO INSTITUTO MÃE PESSOA, EM SÃO PAULO.
    http://www.revistabianchini.com.br

    Multiplicidade de papéis é sinônimo de mulher moderna

    Entrevista Folha Metropolitana – 8 de março 2010

    Multiplicidade de papéis é sinônimo de mulher moderna

    por Simone Cunha

    O Dia Internacional da Mulher completa 100 anos. E, de 1910 para cá, quando foi instituída a data oficialmente, o público feminino foi conquistando o seu espaço. Hoje, as mulheres desempenham uma multiplicidade de papéis: esposa, mãe, dona de casa, profissional e carrega a cobrança de ser perfeita em tudo. “Enquanto as expectativas da sociedade em relação às mulheres mudaram, o suporte que ela recebe – do marido, da família e da sociedade – seguramente não acompanhou esta evolução”, afirmou a psicóloga Sheila Skitnevsky Finger, sócio-fundadora do Instituto Mãe Pessoa (www.maepessoa.com.br).

    Para a especialista, criou-se para a mulher de hoje uma expectativa irreal, de somar casa, família e trabalho, sendo os dois primeiros nos moldes antigos e o trabalho como se ela não tivesse mais nada para cuidar. “Ela deve trabalhar como um homem, mas viver como uma mulher antiga”, acrescentou Sheila. Porém, não se trata de desvalorizar a emancipação conquistada ao longo dos anos. “Trata-se de conscientizar sobre o mito de ideal aplicado à mulher e propor algo mais real e satisfatório”, considerou Tânia Novinsky Haberkorn, psicóloga e sócia do Instituto Mãe Pessoa.

    Aos poucos, o público feminino vem equilibrando com mais eficiência todos esses papéis. E isso tem um custo emocional, pessoal e social. “Entretanto, este aprendizado é pessoal e intransferível. Manuais são de pouca eficácia. Cada mulher tem que descobrir como dar conta de tantas demandas levando em conta a realidade de sua família, expectativa em relação à maternidade e ambições sociais e profissionais”, explicou Tânia. Vale destacar que não é apenas a figura feminina que deve adaptar-se às mudanças, mas a sociedade como um todo. “O conceito é de que todos farão concessões e estabelecer condições para que o sistema encontre um equilíbrio”, completou Sheila.

    A carreira em primeiro lugar

    “Ser mãe não está na minha lista de prioridades”, confessou a médica Solange Mayumi Shiguemoto, 38 anos, casada há oito. Ela trabalha quase 12 horas por dia e se engravidasse o trabalho ficaria comprometido. “Não quero ter um filho para deixá-lo em escola, o dia todo. Por isso, vou adiando a maternidade. A mulher moderna não precisa ser mãe para se realizar, a profissão cumpre bem essa função”, afirmou.

    As psicólogas atentam que escolher investir 100% na carreira e abrir mão da maternidade é uma escolha. “Todas as escolhas têm conseqüências futuras, mas a decisão dessa mulher tem de ser respeitada. Afinal, existem outras maneiras de exercer a maternidade que não necessariamente passa pelo ato de ser mãe”, disse Tânia. E, se em algum momento, ela quiser rever sua escolha, terá que criar espaço em sua vida para tal experiência. “Pode ir da adoção formal até participação mais ativa na vida de um sobrinho”, explicou Sheila.

    E a médica Solange está ciente disso. “Não digo que não terei um filho, mas não planejo. Sei que mais tarde, posso ter vontade, mas é preciso fazer escolhas e assumi-las”, afirmou. Para ela, que trabalha muito para garantir um futuro mais tranqüilo, pode existir uma vantagem em não ser mãe. “Poderei curtir e viajar com o meu marido sem preocupações com escola ou alimentação. Um filho sempre limita”, considerou.

    Dedicação total aos filhos

    “Minha profissão ficou pequena demais diante dos meus filhos”, analisou Vanessa Caubianco, 32 anos, que está realizada cuidando dos “lindos” gêmeos, Patrick e Manuela, com nove meses. Formada em jornalismo e publicidade, Vanessa afirmou que sempre foi workaholic (viciada em trabalho), e ao engravidar imaginou que não agüentaria ficar de licença-maternidade por dois meses. “Fiquei quatro meses em casa, emendei com um mês de férias e foi muito difícil voltar à rotina profissional. Agüentei quatro meses e desliguei-me da empresa”, afirmou a mamãe.

    A psicóloga Tânia Novinsky Haberkorn lembrou que o importante é estar consciente de suas escolhas. “Apesar das limitações que todas enfrentam, ciente da sua decisão ela se sentirá mais satisfeita consigo própria e com a maternidade”. Para Vanessa, abrir mão da carreira valeu a pena, pois ela passou a ter mais flexibilidade para ficar com os seus bebês. “Só não podia deixá-los tomar conta da minha vida. Sou uma boa mãe, mas não me privo das coisas que eu gosto. Cuido de mim, dedico-me ao casamento, criei um blog (mamydegemeos.blogspot.com) e estou escrevendo um livro sobre a experiência de ser mãe de gêmeos”, contou.

    É fundamental que a mulher/mãe não se sinta sem opções. “Ela deve manter interesses próprios e definir a qualidade de tempo que se dedicará aos filhos. Não adianta passar 24h com os pequenos e estar sempre buscando outras coisas ou se sentindo frustrada por não estar em outro lugar”, concluiu Sheila Skitnevsky Finger.